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domingo, 18 de julho de 2010

Fé é aquilo capaz de sobreviver a um estado de ânimo




''Fé é aquilo capaz de sobreviver a um estado de ânimo.''


Gilbert K. Chesterton












“Esta bela estrutura, a terra, me parece um promontório estéril; este magnífico dossel, o ar, vede este esplêndido firmamento suspenso, este majestoso teto trabalhado com um fogo de ouro, apenas me parece uma repulsiva e pestilenta congregação de vapores… Que obra de arte é um homem, que nobre na razão, que infinito nas faculdades, na expressão e nos movimentos, que determinado e admirável nas ações; que parecido a um anjo de inteligência, que semelhante a um deus! A beleza do mundo; a flor dos animais; e contudo, para mim, que é esta quintessência do pó?”




Estranhamente, ouvi esta passagem citada como uma passagem pessimista. Talvez seja a passagem mais otimista em toda a literatura humana. É a expressão absoluta do fato essencial da fé de Hamlet; sua fé de que, embora ele não possa ver que o mundo é bom, ele certamente é bom; sua fé de que, embora não consiga ver o homem como a imagem de Deus, ainda assim é certamente a imagem de Deus. O homem moderno, assim como a concepção moderna sobre Hamlet, acredita apenas em estados de ânimo. Mas o Hamlet real, como a Igreja Católica, acredita na razão. Muitos bons otimistas louvaram o homem quando sentiram que o homem era louvável. Só Hamlet louvou o homem quando sentia vontade de chutá-lo como a um macaco. Muitos poetas, como Shelley e Whitman, foram otimistas quando se sentiram otimistas. Só Shakespeare foi otimista quando se sentiu pessimista. Isto é a definição de uma fé. Fé é aquilo capaz de sobreviver a um estado de ânimo. E Hamlet tem isso do início ao fim. Cedo ele protesta contra uma lei que reconhece: “Oh, não tivesse o Eterno posto a sua lei contra o suicídio!” Antes do fim, declara que de nossa desastrada conduta será feita alguma coisa, “por mais que nós lhe demos a demão de início”.



Gilbert Keith Chesterton
 

domingo, 20 de junho de 2010

A sombra do suicídio




Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia.  Albert Camus 
 




Evangélica relata a dor de ver seu filho tirar a própria vida
 

Quando tinha 13 meses de vida, meu filho Gabriel teve seu primeiro ataque de asma. Eu e minha mãe estávamos terminando as provas do vestido e das lembranças para o meu casamento, que se aproximava. Gabe, como o chamávamos, ficou muito mal – durante todo aquele dia, revezamo-nos em turnos para assisti-lo e dar-lhe remédios que o acalmassem e mantivessem respirando até que o levássemos ao médico. No cair da noite, nós estávamos na emergência do hospital vendo os milagres que podem ser forjados com substâncias como adrenalina e esteróides orais. Gabriel passou os cinco dias seguintes, incluindo o do meu casamento, recuperando-se da crise numa tenda de oxigênio.
Essa memória me lembra que alegria, dor e doença são experiências arraigadas na história de minha família. A começar pelo próprio nascimento de Gabriel. Ele é filho de um tanzaniano e fruto de um romance universitário falido. Não havia o que esconder a respeito das circunstâncias de sua concepção e vinda a este mundo, principalmente depois que me casei com um homem branco como eu. Também não havia remédio para a dor dessas circunstâncias, a não ser o eterno bálsamo do amor.
Por aproximadamente duas décadas, o amor deu rédeas a Gabriel, a seu irmão, a meu marido e eu, como se nós galopássemos lindamente pela vida. Então nós tivemos uma surpresa. Ao mesmo tempo que Gabe se formou na universidade, ele tinha sérias dificuldades em se relacionar com nossos amigos, e era solitário. Por outro lado, nossas experiências pessoais com a igreja tinham deixado eu e meu marido mancando e meus filhos, extremamente desmotivados em relação à vida cristã. Convenci a mim mesma que remédios em casa e o tempo iriam nos curar, e como autodemonstração de fé, contei para os outros que eu iria provar a supremacia do amor nas vidas dos meus filhos. Pois exatamente na época em que pensei estar retomando o controle da situação, meu filho Gabriel se suicidou. Ele tinha 23 anos.
As lembranças que tenho são de calma, entre inexoráveis ondas de tristeza e culpa. Isso me lembra que eu não sou Deus; não posso saber ou ver tudo. Isso também me lembra das muitas vezes em que eu consegui a ajuda para meu filho antes que fosse tarde demais. Minha sanidade e fé demandam cada lembrança. O suicídio é como uma cruel brincadeira cósmica. Era como se Deus ou o diabo, ou algum Jó, estivesse escarnecendo ou brincando conosco. Nossa paranóia era grande – teríamos eu e meu marido sido pais relapsos ou negligentes? Que tipo de ironia horrível foi aquela que fez nosso filho, um rapaz com tudo pela frente, tirar a própria vida?
E o pior é que eu não era leiga no assunto. Ironicamente, no dia anterior àquela tragédia, eu havia participado de um fórum sobre psiquiatria e espiritualidade. Havia até postado textos na internet sobre prevenção ao suicídio. Eu me martirizava pensando que deveria ter reconhecido os sinais de aviso. Ao contrário do que se imagina, quem exibe os mais pronunciados sinais de predisposição mental ao suicídio tende a escolher recursos menos letais, enquanto aquelas que agem impulsivamente recorrem a métodos violentos, como atirar-se de um ponto alto. Por outro lado, menos de dez por cento dos sobreviventes de uma tentativa de suicídio prosseguem no intento de tirar suas vidas. Para mais de 90%, a crise passa.
Naquela noite fatídica, depois da chegada da polícia, recebi a visita de Aaron Kheriaty, o psiquiatra que havia me encaminhado àquele congresso. Ele pacientemente nos assegurou que a morte de Gabriel não era nossa culpa. Lembro-me de suas palavras gentis, mas enfáticas, insistindo que a morte nunca faria sentido, ainda mais através de suicídio, um ato inerentemente irracional. Kheriaty era a pessoa adequada para participar de nosso momento de dor, ao contrário de alguns pastores que preferem descrever o suicídio como uma escolha imprudente ou simples falha espiritual. Aquele especialista também falou no funeral de Gabriel. Sua presença ajudou a estruturar meu desgosto e descansar minha mente que estava imersa num oceano de dúvidas.
Passado o trauma inicial – refiro-me ao trauma, porque a dor não passa nunca! –, relembrei as últimas conversas que tive com meu filho. Uma delas foi justamente naquela noite, antes de ele sair. “Gabe, querido”, eu disse. “O que está acontecendo com você? Seus olhos parecem mortos.” Ele somente fez como que se não precisasse de nada e eu o deixei ir. Só que Gabe, como aproximadamente metade dos universitários, tornou-se depressivo quando deixou nossa casa. Eu o incentivei a procurar conselhos no serviço escolar. Depois, olhando em perspectiva, desejei que nós tivéssemos lhe dado um ultimato: que procurasse ajuda ou voltasse para casa.
Somente nos fins de semana que passava conosco Gabriel revelava que algo em seu íntimo ia errado. Ele se tornou um jovem fechado e irritante, com humor oscilante. Notícias de empréstimos tomados sem razão e casos de delinquência chegavam pelo correio quase que diariamente. Ele usava roupas sujas para ir trabalhar, dormia pouco e aparentava pouco apetite. Entretanto, pouco antes de sua morte, Gabriel se apresentou em um clube de comédia. No dia da sua morte, ele brincou com colaboradores e publicamente professou seu amor por Jesus. Especialistas descrevem essa contradição como “suicídio calmo”, que acontece quando alguém decide, finalmente, acabar com o tormento mental. O aspecto vago que eu notei em seus olhos já era indício de depressão suicida. No seu espírito, ele já tinha nos deixado.
Sobreviventes precisam de tempo e espaço para vir à realidade de auto-avaliação. Kheriaty fechou sua mensagem com uma meditação do Príncipe da paz. Na cruz e na sua agonia, nosso Senhor sofreu não somente nossas aflições físicas, mas nossas angústias mentais também. Fora de nossas profundidades nós choramos diante do Senhor, e ele alcança o nosso profundo e nos levanta com ele. Deus sabe da profundidade do nosso sofrimento; ele conhece a fragilidade do nosso coração. E o coração do próprio Cristo, tão humano quanto divino, é misericordioso além da medida. E é nessa misericórdia que nós colocamos nossa esperança. Nas mãos estendidas na cruz, num gesto supremo de amor, é que nós confiamos Gabriel.
Quando eu penso em tudo que Gabe sofreu em sua vida, fico sem entender algumas coisas. E descubro que é difícil confiar em Deus ou me engajar com intimidade como fiz uma vez. Todo dia, inalo um momento de graça. Estou imensuravelmente grata pelo privilégio de ter sido a mãe de Gabriel. Pela fé, vejo agora que meus encontros acidentais com Aaron Kheriaty não foram uma piada cósmica, mas uma evidência da imanência de Deus. Como Gabriel estava caminhando para fora da porta desta vida, eu o chamei depois, dizendo “eu te amo”. Amor é tão forte como a morte, conforme Salomão escreveu. Sim, o amor de Deus é mais forte.
Christine A. Scheller é escritora e mora em New Jersey, EUA
Prevenindo o que não se pode remediar
Segundo a Fundação Americana para Prevenção do Suicídio, esta é a quarta causa de morte entre pessoas de 18 a 65 anos e a terceira entre adolescentes e jovens adultos nos Estados Unidos. Todavia, noventa por cento das vítimas de suicídio sofrem de disfunção psiquiátrica diagnosticável – por isso, reconhecer os sintomas e tratá-los pode salvar vidas.

Fatores de risco incluem:
Desordem psiquiátrica
Uso abusivo de drogas (inclusive medicamentos legais)
Tentativa anterior de suicídio, ou histórico familiar de suicídio ou doença mental.
Fator demográfico (homens brancos de idade avançada possuem o maior percentual de suicídio; e indivíduos com tendência artística sofrem desproporcionalmente de disfunção de comportamento)
Sinais de advertência incluem:
Desânimo persistente
Perda de interesse em atividades antes consideradas agradáveis
Falta de esperança
Ansiedade, dor física, tensão interna
Retraimento
Distúrbios no sono
Aumento do uso de álcool e/ou drogas
Prática de atividades arriscadas
Conversa sobre suicídio ou desejo de morrer
Prodigalidade (doação de bens valiosos, por exemplo)
Aquisição ou posse de arma de fogo, venenos ou drogas narcóticas
Aumento de irritabilidade ou raiva
Caso você conheça ou conviva com um potencial suicida, saiba como ajudá-lo:
Pergunte se a pessoa está considerando o suicídio e se ela tem plano neste sentido
Evite culpar o potencial suicida. Em vez disso, expresse preocupação com empatia, assegurando-lhe que sentimentos suicidas são temporários, problemas podem ser resolvidos e a depressão é tratável
Encoraje a pessoa a procurar ajuda profissional. Indivíduos suicidas geralmente acham que não podem ser ajudados
Em situações de crise, não hesite em encaminhar a vítima a atendimento especializado
Nunca deixe o suicida em potencial sozinho
Remova objetos que poderiam ser usados em tentativas de suicídio

Relato da escritora americana Christine A. Scheller Extraido de:http://cristianismohoje.com.br

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Paganismo versus Cristianismo - ou, Acaso versus Planejado.






Será que tudo que nos acontece é por acaso? Os acontecimentos, quer sejam bons ou maus, ocorrem acidentalmente, de maneira aleatória, sem que haja uma finalidade neles? Os que pensam assim, acham que Deus não determinou, decretou, ou planejou absolutamente nada com relação aos seres humanos, seu futuro histórico ou eterno, e muito menos os acontecimentos diários. Nada foi previsto ou determinado por Deus, inclusive os eventos naturais como terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, acidentes, quedas de aviões, enfim – nada foi previsto ou determinado por ele. Portanto, tudo é imprevisível como num jogo de futebol. Não se sabe o futuro, não se pode prever absolutamente nada quanto ao fim da história. Junto com seus seres morais, Deus constrói em parceria o futuro, que neste acaso é aberto, indeterminado e incognoscível. Inclusive para ele mesmo.

Ou, será que as coisas que nos acontecem, mesmo as menores e piores, têm um propósito, ainda que na maior parte das vezes desconhecido para nós? Os que pensam assim entendem que Deus criou o mundo conforme um plano, um propósito, um projeto, elaborado em conformidade com sua sabedoria, justiça, santidade, misericórdia e poder. Nada que acontece, mesmo as mínimas coisas, o fazem ao acaso e de forma aleatória, contingencial e casual, mas segundo este plano sábio. As decisões dos seres humanos são tomadas livremente por eles mesmos, mas, de uma forma que não compreendemos, elas acabam contribuindo para a concretização do propósito divino sem que Deus seja o autor do pecado. Tudo que ocorre, coisas boas ou ruins, estão dentro deste propósito concebido antes da fundação do mundo.

A melhor maneira de avaliarmos qual das duas é a visão correta é perguntarmos qual delas se aproxima mais da visão de Deus, do mundo e do homem que a Bíblia apresenta. Como os autores bíblicos concebiam o mundo, a história e os acontecimentos?

Ninguém que conheça a Bíblia poderá ter dúvidas quanto à resposta. Os judeus, ao contrário dos povos pagãos ao seu redor, não acreditavam em sorte, azar, acaso, acidente ou contingências. Eram os filisteus e não os israelitas que acreditavam que as coisas podiam acontecer ao acaso (veja 1Sm 6.9). Os israelitas, ao contrário dos pagãos, não acreditavam no acaso.

Para eles, Deus tinha traçado planos para os homens e as nações, e os mesmos iriam se cumprir inevitavelmente. Estes planos não poderiam ser frustrados por homem algum (Jó 42.2; Pv 19.21; Is 14.27; Is 43.13; Is 46.10b-11). Tais acontecimentos estavam tão inexoravelmente determinados que Deus dava conhecimento deles de antemão, através dos profetas. O fato de que os profetas de Israel eram capazes de predizer o futuro com exatidão era a prova de que o Deus de Israel era superior aos deuses pagãos (Is 46.9-10).

Os autores do Antigo Testamento sempre descrevem eventos que aconteceram aparentemente ao acaso como sendo o meio pelo qual Deus realizava seu propósito final. Assim, o arqueiro que atirou sua flecha “ao acaso” durante uma batalha acabou atingindo o rei de Israel e dessa forma cumpriu a profecia sobre sua morte (2Cr 18.33). A tempestade que atingiu o navio em que Jonas fugia para Társis não foi mera contingência, mas resultado da ação de Deus em levar o profeta a Nínive (Jn 1.4). O amalequita que vagueava “por acaso” nos montes de Gilboa foi o que encontrou Saul agonizante e o matou, cumprindo assim a determinação do Senhor de castigá-lo por ter consultado a pitonisa (2Sm 1.6-10; 1Cr 10.13). O encontro “casual” do profeta com um leão causou-lhe a morte e assim cumpriu a profecia contra ele (1Re 13.21-24). A visita casual que Acazias foi fazer a Jorão e o encontro fortuito com Jeú era tudo “a vontade de Deus” conforme o autor do livro das Crônicas, para que Acazias fosse morto (2Cr 22.7-9). Dezenas de outras passagens poderiam ser citadas para mostrar que na cosmovisão dos autores do Antigo Testamento nada acontecia por acaso, nem mesmo as pequenas coisas.

Até mesmo ações pecaminosas dos homens são atribuídas a Deus pelos autores do Antigo Testamento. O endurecimento do coração de Faraó para não deixar o povo de Israel sair é atribuído à Deus, que queria mostrar sua glória e seu poder sobre os deuses do Egito (Ex 7.3; 9.12). O endurecimento dos filhos de Eli para não se arrependerem do mal praticado é atribuído à Deus que os queria matar (1Sm 2.25). O endurecimento do rei Seom para não deixar Israel passar por sua terra é atribuído a Deus, que queria entregá-lo nas mãos de Israel (Dt 2.30), bem como o endurecimento de todas as nações cananitas (Js 11.20). Ao mesmo tempo, é preciso acrescentar, os israelitas não consideravam Deus como culpado do pecado humano. Ele era santo, justo, verdadeiro e não podia contemplar o mal (Hab 1.13). Todos estes mencionados acima foram responsabilizados por seus próprios pecados.

A visão de um mundo onde as coisas acontecem ao acaso, acidentalmente, sem propósito, é completamente estranha ao mundo dos israelitas conforme temos registrado na Bíblia.

Quando chegamos na pessoa de Jesus, encontramos exatamente a mesma visão de mundo, de Deus e da história, que é refletida no Antigo Testamento. Para Jesus, até mesmo coisas tão insignificantes como o número de cabelos da nossa cabeça (Mt 10.30) e a morte de pardais (Mt 10.29) estavam sob o controle da vontade de Deus. Ele era capaz de profetizar acontecimentos futuros tão triviais quanto o local onde se encontrava uma jumenta e seu jumentinho (Mt 21.2), que Pedro iria achar moedas na boca de um peixe (Mt 17.27) e que um homem estaria em determinado momento entrando na cidade com um cântaro na cabeça (Lc 22.10-12). Obviamente estas coisas não aconteceram por acaso.

Jesus se referiu à vontade de Deus e ao plano dele inúmeras vezes, como por exemplo, ao ensinar aos seus discípulos que tinha vindo ao mundo para morrer na cruz para salvar pecadores (Mt 17.22-23). As parábolas que Jesus contou sobre o futuro de Israel e sobre o dia do juízo deixavam pouca dúvida de que, para Ele, a história caminhava para um fim já traçado e determinado por Deus. No sermão escatológico Jesus predisse com exatidão a queda de Jerusalém, a fuga dos discípulos, o surgimento dos falsos profetas, as catástrofes, terremotos, secas, pestes e guerras que haveriam de suceder à raça humana e as perseguições que sobreviriam a seus discípulos antes de sua vinda (Mt 24).

Os discípulos de Jesus, os autores do Novo Testamento, tinham exatamente a mesma visão de um mundo onde nada ocorre por acaso. Tudo o que havia acontecido com Jesus, como o local do seu nascimento (Mt 2.5-6), sua ida ao Egito (Mt 2.15), sua vinda a Nazaré (Mt 2.23), seus milagres (Mt 8.16-17), sua traição (Jo 17.12), seu sofrimento e sua morte na cruz (At 3.18) – inclusive detalhes como beber vinagre (Jo 19.28-29), ter sua túnica rasgada (Jo 19.24) e seu corpo furado por uma lança (Jo 19.34-36) – tudo isto havia sido determinado por Deus em detalhes, a ponto de Deus ter revelado estes fatos cerca de seiscentos anos antes dos mesmos terem acontecido por meio dos profetas de Israel. Pensemos na probabilidade de atos, decisões e eventos acidentais, aleatórios, ao acaso, contingenciais, acontecerem de tal forma que estas coisas aconteceram exatamente como os profetas tinham dito!

Não só os fatos ocorridos com Jesus haviam sido planejados, inclusive aqueles que cercaram o nascimento da igreja cristã. A substituição de Judas (At 1.16-26), o dia de Pentecoste (At 2.14-17), a rejeição de Israel (At 13.40), a inclusão dos gentios na Igreja (At 15.15-20) – tudo aquilo havia sido determinado por Deus e previsto nas Escrituras pelos profetas. Veja a quantidade de vezes que no livro de Atos se menciona que a história de Cristo e da igreja haviam sido determinadas por Deus e anunciada pelos profetas: Atos 3.18,21-25; 10.43; 13.27,40; 18.28; 26.22.

Nas cartas que escreveram às igrejas, os autores do Novo Testamento jamais, em qualquer lugar, ensinaram os crentes que as coisas acontecem por acaso. Ao contrário, eles ensinaram os crentes que a conversão deles era resultado da vontade de Deus. Eles foram predestinados (Rm 8.29-30; Ef 1.5,11), escolhidos antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Os crentes são ensinados a buscar a vontade de Deus, a se submeter a ela e a entender que a vontade de Deus controla a história (Rm 8.27; 12.2; Ef 6.6; Cl 4.12; 1Ts 4.3; 5.18; Hb 10.36; 1Pd 2.15). Até o sofrimento por causa do Evangelho era visto como sendo pela vontade de Deus (1Pd 3.17; 4.19). Eles foram ensinados a ver uma santa conspiração divina em tudo que acontece em favor do bem deles (Rm 8.28), a ponto de serem exortados a dar graças em tudo (1Ts 5.18). Eles são exortados a dizer sempre “se Deus quiser” farei isto ou aquilo (Tg 4.15). Paulo sempre dizia que “se for a vontade de Deus” ele iria a este ou aquele local (Rm 1.10; 15.32). Ele sempre começa suas cartas dizendo que foi chamado “pela vontade de Deus” para ser apóstolo (1Co 1.1; Ef 1.1; Cl 1.1; 2Tm 1.1).

Os cristãos são encorajados a enfrentar firmes as provações e tentações, pois Deus não permitirá que eles sejam provados além de suas forças (1Co 10.31). Eles devem sofrer com paciência em plena confiança que o Deus que está no controle de todas as coisas lhes dá a vida eterna e que ninguém poderá arrancar seus filhos de suas mãos. Eles são consolados com a certeza de que Deus haverá de cumprir todas as suas promessas, e que há um final feliz para todos os que confiam nele e crêem em Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador. Eles são exortados a permanecer firmes pois o bem haverá de triunfar sobre o mal, a justiça prevalecerá e a verdade haverá de vencer. E isto só é possível porque Deus está no controle, porque Ele conduz a história para o fim que Ele mesmo determinou, de uma maneira sábia e misteriosa, na qual os seres humanos e os anjos são responsáveis por seus atos, decidem fazer o que querem e tomam as escolhas que desejam.

À semelhança dos autores do Antigo Testamento, os escritores do Novo também atribuem a Deus o fato de que os ímpios e pecadores impenitentes se afundam cada vez mais no pecado. Paulo por três vezes em Romanos 1 declara que Deus entregou os incrédulos de sua geração à corrupção de seus próprios corações, para que eles se afundassem ainda mais no pecado e na iniqüidade (Rm 1.24,26,28). Aos tessalonicenses, ele declara que Deus manda a operação do erro para que os que rejeitam a verdade e creiam na mentira (2Ts 2.11). Igualmente, à semelhança do Antigo Testamento. O Novo responsabiliza os seres humanos por seus próprios pecados e condenação.

É evidente que não será na Bíblia que encontraremos esta visão de um mundo onde as coisas acontecem por mero acaso, onde tudo é casual e contingencial. Mas, vamos encontrá-la na mentalidade pagã, nas religiões idólatras, de deuses pequenos, impotentes, egoístas. Vamos encontrar esta visão de um mundo onde as coisas ocorrem de maneira aleatória nas idéias dos maniqueístas e gnósticos, ateus e agnósticos, especialmente os evolucionistas, que defendem que tudo surgiu e acontece como resultado de uma combinação fortuita de tempo e de acaso.

Os verdadeiros cristãos, todavia, cantam “acasos para mim não haverá”.

Se tudo acontece por acaso, que combinação inimaginável de ações livres, aleatórias e catástrofes naturais fortuitas poderão unir-se numa conspiração impessoal e totalmente ao acaso para produzir o final que Deus prometeu na Bíblia? Se Deus não é Deus, então o acaso se torna Deus e não temos qualquer garantia de que o final feliz prometido na Bíblia haverá de acontecer.

Não nos enganemos. A discussão entre acaso versus planejamento não é uma disputa teológica entre cristãos arminianos e calvinistas, pois os arminianos e os calvinistas concordam que Deus tem um plano, que ele controla a história, que não existe acaso e que Ele conhece o futuro. Ambos aceitam a Bíblia como Palavra de Deus e querem se guiar por ela. O confronto, na verdade, é entre duas visões de mundo completamente antagônicas, a visão pagã e a visão bíblica, entre as religiões pagãs e a religião bíblica. Posso não entender tudo sobre este assunto, mas prefiro mil vezes ficar ao lado dos autores da Bíblia do que ao lado de filósofos, teólogos e poetas ateus, agnósticos e racionalistas.


Extraido de  http://tempora-mores.blogspot.com/